Orgulho e Preconceito

 Título Original : Pride & Prejudice

Direção: Joe Wright

Gênero: Romance

Lançamento: 2005

Atores: Keira Knightley, Matthew MacFadyen, Judi Dench, Donald Sutherland, Brenda Blethyn

A começar pelo título, Orgulho & Preconceito, o filme inspirado no livro homônimo da escritora britânica Jane Austen, exala romantismo. Recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo melhor atriz. Logo no início do filme, a câmera espetacular de Joe Wright invade o mundo dos Bennet, uma família tradicional da inglaterra do final do século XVIII, que possui preocupações atemporais e dão à trama um ar universal. Ora, qual mãe, seja hoje ou há 300 anos atrás, que tenha criado cinco filhas descentemente que não viveria atordoada “arranjando” o futuro destas cinco senhoritas? Entretanto, a preocupação da Sra. Bennet (Brenda Blethyn) não é que as filhas saiam de casa, e sim que elas sejam salvas. Lembre-se o romance se passa em 1797, transição entre o período georgiano e vitoriano na Inglaterra, ou seja, a sociedade não havia mudado por completo. Não existia nenhum filho do sexo masculino a quem o espólio da família seria destinado. Elas precisavam se casar e rápido!

A segunda filha, Elisabeth Bennet (Keira Knightley) é uma mulher além de seu tempo. Elisabeth tem uma resposta para tudo. Muito decidida e de forte personalidade, protagoniza longos diálogos eletrizantes e apaixonantes. A primeira cena do filme mostra Liz com uma de suas maiores paixões: um livro. Parece simples, mas ao analisar a sociedade nos tempos de Austen, percebe-se um teor de “vanguardismo” quando a autora faz questão de mostrar uma mulher do final do século XVIII lendo um livro ao mesmo tempo que anda ao redor de sua casa, dois gestos caracterizados comuns na trama. Na literatura de 1790 surgia uma escola literária denominada Romantismo. Ao passo que as revoluções burguesas caracterizavam uma mudança relevante na sociedade européia, a literatura também ganhava novas formas. A transformação desta arte em mercadoria, popularizou os livros até que chegassem às mãos de Sta. Elizabeth Bennet.

A história das irmãs Bennet muda quando  Sr. Bingley, um jovem solteiro rico, passa a morar em uma mansão vizinha. Todas logo se aprontam, inclusive Jane, a mais bela das cinco, que terá de conquistar o coração do rapaz no baile que haverá na cidade. Lizzy não parece muito interessada, na verdade ela nunca foi interessada nesses assuntos e não sonha em casar-se e devotar sua vida de maneira integral a homem nenhum. Liz adota alguns ideais semi-revolucionários, já que as mulheres eram educadas nos princípios de Rousseau:  somente para cuidados domésticos. O filme mostra uma cena de Liz questionando essas características de uma moça “prendada”  (tocar piano, pintar, costurar, ler e até sentar em uma postura correta). Sempre em tom respeitador e intelectual

Sr. Bingley chega ao baile acompanhado de sua irmã, a megera Caroline, e de seu melhor amigo Sr. Darcy (Matthew MacFadyen). A aparição repentina dos três causa um frisson e todos param para comprimentá-los e as primeiras da fila são as Bennet. A “química” acontece entre Jane e Bingley (que não dispensam a saudação formal), porém entre Darcy e Lizzy ocorre uma reação reversa, uma repulsão enfatizada pela recusa de  Darcy ao pedido de Liz para uma dança, outra quebra de paradigmas, já que é sempre o homem que pede a mão de uma senhorita para dançar. Elisabeth deixa bem claro que não se submete a homem algum e que não é igual a nenhuma de suas irmãs.

Enfim a cena dessa bendita dança acontece. É a cena mais linda e mais emocionante do filme , a que provavelmente concedeu as indicações ao oscar. Sr. Darcy finalmente convida Lizzy para dançar, que sem palavras, aceita. A atriz Keira Knigthley conseguiu transmitir as emoções que Jane Austen havia descrito há mais de 200 anos atrás. Impactada com o repentino convite, Liz é desmascarada, não há uma expressão definida em seu rosto: uma mistura de espanto, confusão e … amor? O melhor é o que está por vir: a dança. São 2 minutos e meio  sem parar com a câmera, não há cortes na fotografia; o próprio diretor explica que os atores ensaiaram durante dias para que a cena fosse gravada. De uma música agitada onde as outras Bennet se sacudiam sem parar a uma canção tauciturna e misteriosa, o dois descobrem por meio de um diálogo intenso que se amam, e não conseguem ver mais ninguém no ambiente que se encontram a não ser o outro. Manter dois atores em uma dança meticulosa e um diálogo denso é difícil, contudo, existem mais de 100 figurantes em cena, mantê-los é uma tarefa bem mais complicada. Tarefa essa que o diretor completa com maestria.

Jane Austen nos mostrou em Orgulho e Preconceito, seu romance mais aclamado, a importância do amor. Apesar de Elisabeth ser uma mulher decidida em relação aos casamentos arranjados e até mesmo ao amor, ela se entrega a Sr. Darcy de forma não-convencional, mas se entrega. Ela tenta provar ao contrário durante toda a história e age muito bem ao  desfazer alguns conceitos e  atitudes tolhidas às moças da época. Mas Jane nos prova que amor é uma qualidade inata a qualquer ser humano, independente da ideologia. Um romance “épico”, considerado o segundo mais importante da Inglaterra,  sequer tem um beijo. Até porque não há necessidade. As palavras, os gestos , o olhar, tudo fala mais alto que um beijo que não encontra espaço nessa trama.

Guilherme Moreira Santos

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